19 de mar de 2012

Morte precoce silencia Igor Belchior

Apresentador desde os 5 anos, aos 13 garoto sucumbe à fibrose cística; comoção não se limita à comunidade evangélica

Luciana La Fortezza/Redação

Se surpreende uma criança de 5 anos ter desenvoltura e talento para comandar um programa de rádio ao vivo, também surpreende despedir-se dela com apenas 13. Ainda assim, milhares de pessoas, estimadas em 4 mil por familiares, prestaram ontem a última homenagem ao garoto Igor Belchior, considerado um ‘fenômeno da palavra’.

Portador de fibrose cística, ontem, às 4h15, ele sucumbiu à insuficiência respiratória que evoluiu para uma parada respiratória. Antes de morrer, permaneceu 13 dias internado, conforme divulgado pelo JC na última sexta-feira. No dia anterior ao que foi levado para o hospital, gravou seu milésimo programa evangélico na TV Preve. Também apresentava um programa de rádio ao vivo pela Rede Bandeirantes.

“Ele nunca regravou um programa de TV. Era um leitor assíduo da palavra de Deus”, comenta o pai Arnaldo Belchior Júnior. Seu filho primogênito, então com 5 anos, o sucedeu nos programas de rádio. “O levava comigo para gravar. Um dia, ele pediu para falar. Depois disso, eu nunca mais gravei”, comenta.


Agora, com a voz silenciada do filho, ele não descarta a possibilidade de voltar ao antigo ofício, desempenhado com excelência pelo filho. Júnior recebeu os abraços dos amigos, que estiveram ontem na Assembleia de Deus Ministério Belém, presidida pelo pai dele e situada na quadra 7 da rua Aparecida.

Autoridades




O deputado federal Paulo Freire recebeu a notícia com muito pesar e entrou em contato com os familiares apresentando suas condolências. Impossibilitado de estar presente enviou representantes. Sua mensagem postado através do  facebook, atraiu centenas de comentários e milhares de acessos.

Arnaldo e sua esposa, Mônica, receberam os pêsames de autoridades como o prefeito Rodrigo Agostinho, que destacou a genialidade de Igor, e da vice-prefeita, Estela Almagro. Eles estiveram presentes ao velório, assim como o presidente da Câmara, Roberval Sakai. Amigo da família e evangélico, Sakai esteve inclusive no Hospital da Unimed, onde Igor ficou internado, para fazer orações.

“Ele era um pequeno grande homem de Deus. Amanhã (hoje), vou usar a Tribuna da Câmara para mostrar imagens dele, que deixou uma história linda”, afirma o vereador. Vários parlamentares que não puderam comparecer ao velório demonstraram tristeza por meio do Facebook, muito acessado principalmente por amigos e fãs que deixaram mensagens de adeus e de conforto à família. Mais de 400 pessoas acessaram o perfil do locutor-mirim.

“A comunidade evangélica amanheceu de luto. Passamos os últimos dias acreditando num milagre, até o último momento esperávamos por isso”, diz Ubiratan Cássio Sanches, presidente do Conselho de Pastores de Bauru. Para Júnior, o fato de Igor ter chegado aos 13 anos mesmo sendo portador de fibrose cística já foi um milagre.



Dom de pacificar e unir pessoas

Apesar da pouca idade, Igor Belchior era capaz de pacificar e unir as pessoas. De acordo com Ubiratan Cássio Sanches, presidente do Conselho de Pastores de Bauru, ele reuniu várias igrejas em torno da pregação da palavra. No velório também havia relatos de amigos de escola de Igor que, por conta da indisciplina e da pré-disposição para desentendimentos, eram colocados ao lado dele. “Não conseguiam brigar com ele, que era sério, mas sempre estava de bom humor”, comentavam.

Não à toa, assim que foi internado, uma legião de pessoas se dirigiam até o Hospital da Unimed para orações. Segundo a família, numa ocasião, 60 pessoas se reuniram no local para orar por ele. Pessoas, inclusive, de várias cidades da região. “Um dia ele estava com o respirador e falou: ‘Pai, agora me vi pregando para uma multidão’”, conta Arnaldo Belchior Júnior.

Ele também recebeu os abraços dos amigos próximos ao filho caçula de 5 anos. Muito abalada, a esposa dele, Mônica Auricchio Manoel Belchior, chegou mais tarde ao velório, amparada por parentes e amigos.



Vontade de ser jornalista

Por conta do dom manifestado desde os 5 anos, Igor Belchior queria ser jornalista, conta um de seus melhores amigos, Pedro Henrique Mota Silva. O apreço pela área era tanto que brincavam de repórter com a câmera filmadora do pai, Arnaldo Belchior Júnior.

Para outro amigo, Victor Marcelino, Igor sempre será um exemplo porque conseguia superar suas dificuldades. “Ele nunca me questionou ou reclamou por ter fibrose cística”, acrescenta o pai. Pelo contrário, era um garoto alegre, muito comunicativo e especialmente bom nas áreas de atualidades e geografia, conforme relatam amigos de sala de aula que foram ao velório.

Amanda Rodrigues Ferreira, Caroline Bertoti Palhares, Lucas Eiji Nagami Carvalho e Jhonny Grando Puttini cursavam com Igor o 9º ano do ensino fundamental em Bauru.



Superação

Quem acompanhava o talento e bom humor do locutor-mirim não imagina o quanto ele sofria com problemas de saúde, especialmente quando era mais novo. Em 10 meses de vida teve 27 pneumonias, contou a mãe Mônica Auricchio Manoel Belchior em 2006, quando Igor concedeu uma entrevista ao JC.

Portador de fibrose cística, doença caracterizada por infecção broncopulmonar crônica e má função intestinal, logo que nasceu Igor passou por uma cirurgia, a primeira das cinco às quais foi submetido. Por conta da saúde frágil, o menino foi internado diversas vezes. Chegou a ser dependente do oxigênio 24 horas por dia e se alimentava por sonda. Somente aos 3 anos começou a andar, contaram na ocasião.

Os médicos diziam que Igor tinha 5% de chance de vida. O fato de chegar aos 13 anos é considerado pela família um milagre de Deus. Há cerca de 15 dias, ele começou a sentir dor de estômago e foi a uma consulta médica.

Depois, foi internado, seguiu para a UTI e o quadro piorou. Igor foi enterrado ontem à tarde no Cemitério do Ypê. “Ele foi uma bênção para Bauru, para mim e a minha família”, conclui o pai, Arnaldo Belchior Júnior.



Fibrose cística

A fibrose cística, doença da qual sofria Igor Belchior, é herdada geneticamente. Na maioria das vezes, é diagnosticada na infância, embora também possa ser manifestada na adolescência ou na vida adulta, segundo o site ABC da Saúde. As pessoas com fibrose cística têm um funcionamento anormal das glândulas que produzem o muco, suor, saliva, lágrima e suco digestivo.

Até 20% dos recém-nascidos com fibrose cística podem ter uma obstrução no intestino por causa da insuficiência no funcionamento das enzimas do pâncreas. Na fibrose cística, as enzimas do pâncreas, que deveriam ajudar a digerir alimentos gordurosos, não são liberadas para dentro do intestino.

Com isso, os alimentos (principalmente os gordurosos) são mal digeridos. As pessoas com esta doença podem ter sintomas respiratórios como tosse, expectoração excessiva e respiração difícil.

Fonte Jornal da Cidade
Via Diário da Fé